Esta semana a Universidade de Caxias do Sul realiza um dos maiores congressos de sua história para promover a aplicação, no Direito, das teorias dum economista cujos dados que ostentava relativos à sua própria época - resta hoje comprovado - eram cabalmente falsos, cuja doutrina econômica foi esmigalhada pela estrutura mesma da realidade, como demonstrou - não bastassem os fatos - a lógica de autores como Schumpeter, Hayek e Mises, e cujas proposições de reengenharia social garantiram ao século XX a epígrafe de o mais sangrento de toda a caminhada humana sobre a Terra, derrotando com folga a união de quase todos os anteriores no quesito democídio e ódio pespegados em tempos de paz.
Num evento nascido para, como de praxe, criticar "tudo isso que está aí" a título de capitalismo (um termo eclético o suficiente para abranger tudo o que houver sob a triangulação Geisel - Pinochet - Mercantilismo setecentista, plus a democracia, à qual chamam "burguesa"), não se pode deixar de indagar a origem do dinheiro. No melhor espírito neofascista que caracteriza a república sindicalista, os organizadores garantiram portas abertas ao receber patrocínio de empresa estatal - aquela mesma que, tão amiga do proletariado, estupra sigilos bancários de caseiros "inimigos d'O Partido, que é O Povo" - assegurando, assim, uma boa penca de participantes internacionais.
Que tão repulsivo congresso se dê em instituição privada, fundada - dentre outros - pela Igreja Católica e instalada em região das mais aburguesadas e prósperas do subcontinente não deixa de ser sinal dos tempos, de uma mentalidade que vai muito além daqueles "bárbaros selvagens" que, apontava Ortega y Gasset, criam-se a leite com pêra para, esnobes e megalômanos, crescer e destruir suas próprias civilizações, imaginando - e aí estamos com Hayek, um Nobel - guardarem mais informação e conhecimento em suas cabecinhas ditatoriais do que nas construções autônomas e livres de todo o resto da humanidade.
O marxismo, é sabido, encontrou em sua evolução dois públicos cativos que nunca dantes se pensariam pares: intelectuais egocêntricos de matriz empiricista, dotados duma profunda e inexpugnável demofobia, e pós-adolescentes frustrados pela própria e natural inferioridade - seja ela profissional, intelectual ou estética (causa comum às mocinhas de esquerda). Estes identificam na dogmática do ódio coletivo proposta pelo Papai Noel parasitário um perfeito mecanismo de transferência de suas próprias culpas e mágoas para uma superestrutra externa e inatingível. Dito cenário humano está bem representado no congresso. Passei por lá movido por uma curiosidade quasi paleológica. Não fosse repugnante, seria engraçado ver tantas caricaturas jurássicas, com seus banhos vencidos e barbas por fazer, ao lado das típicas patrícias caxienses que trocavam suas bolsas Victor Hugo por sacolinhas com a face do Mau Velhinho - aquele cujos duendes na cachola eram bancados pelo burguês Friedrich Engels.
Face às centenas de milhões de cadáveres legados por todos os regimes, sem exceção, que se propuseram a acelerar a marcha histórica da utopia marxista junto à realidade, fica a pergunta: qual será o próximo grande evento que encontrará espaço no UCS Teatro? Goebbels e a publicidade responsável? "Mein Kampf" e a literatura progressista? Como coerência é critério basilar à investigação da verdade - em espécie a verdade acadêmica - podemos antever sacolinhas com a face de Hitler (quiçá abraçado a Nietzsche, para calar os "direitosos intolerantes") a desfilar pela galeria universitária. Ou, para os senhores do Bloco 58, a dignidade das vítimas calcula-se pela cor de suas bandeiras? E quanto a quem bandeira não tem? Para o verdadeiro marxista, o simples não-marxismo basta para configurar a "crimideia" (Orwell, you fool).
A estrela deste universo, prezados companheiros mantenedores dessa instituição pequeno-burguesa, é a estrela vermelha. Ela paga bem e confere grande prestígio a quem lhe serve, não há dúvidas. Tal qual fazia enquanto exterminava populações inteiras via fome programada e enviava intelectuais "dissidentes" à rede de gulags que inspirou os campos alemães. Tal qual faz, ainda, mantendo a oposição cubana em presídios piores que os brasileiros para presos comuns, quando não os despacha no paredón. Tal qual orgulhava-se de fazer a polícia do pensamento que, sem foice, nem martelo, levou a cabo o socialismo de classe média da suástica nazista.
Profunda vergonha - e pena duns bons professores obrigados a se submeter a esse circo de horrores. Seus heróicos esforços por arejar esse ambiente viciado merecem nossa mais sincera admiração, em nome dos muitos mestres e doutores que o maoismo arrastou pelas praças em chapeus de burro para construir o velho mundo novo.
L.F.